A Abstenção Juvenil e as repercussões na democracia
- Hora Incerta
- 19 de jan. de 2021
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Com a aproximação das eleições presidenciais e dada a sua importância, no Hora:Incerta decidimos partilhar as conclusões dos estudos mais recentes sobre a abstenção juvenil. Sendo o primeiro momento eleitoral a ser realizado em pandemia, os números da abstenção tomam proporções alarmantes, pelo que agora mais do que nunca é fundamental exercermos o nosso direito de voto, para que a democracia não sofra as repercussões.
As razões para a abstenção juvenil são de várias ordens:
1. Os jovens que não são economicamente emancipados sentem que o ato eleitoral não afeta significativamente a sua vida e, consequentemente, são os que se abstêm mais.
2. Os jovens empregados por conta de outrem vão apresentar uma maior taxa de abstenção, seguindo-se a estes aqueles sem ocupação profissional (desempregados e estudantes).
3. A maioria dos jovens sente-se posto à margem das preocupações dos partidos, uma vez que o programa partidário não vai de encontro aos seus interesses pessoais, mas sim aos de uma faixa etária mais elevada.
Cada vez mais os jovens saem de casa dos seus pais mais tarde. Como tal, a sua dependência, especialmente económica, prolonga-se. Uma vez que as decisões quotidianas de teor político não condicionam diretamente os jovens, mas sim os adultos dos quais dependem, estes revelam um desinteresse político mais acentuado. Incentivar a emancipação económica dos jovens na sociedade atual, criando condições condignas para tal, apresenta-se como uma possível estratégia para aumenta a sua participação política, uma vez que as decisões tomadas pelos órgãos de poder fazer-se-iam sentir com maior impacto nas suas vidas. A implementação de atividades que permitam levar os jovens a reconhecer o voto não como uma obrigação, mas como uma necessidade importante, promovem a integração social dos mesmos, pelo que pode reduzir a taxa de abstenção juvenil, fazendo-os sentir-se parte da democracia.
4. Os jovens consideram que os candidatos despojados de características como liderança, empatia, envolvimento, confiança e boas capacidades de transmitir emoções não são merecedores do seu voto;
Existe um conjunto de competências sociais e emocionais valorizadas pelos votantes, como honestidade, emoção, vontade de fazer melhor, valores éticos e morais que são motores do aprofundamento da relação entre os eleitores e os candidatos. A liderança política, o debate, o agir, a persuasão, a estratégia e o modo de comunicar são pontos-chave para que sejam entendidos e ouvidos pelas demais camadas da população. Uma predisposição para se ligarem aos eleitores é crucial, na medida em que gera confiança e empatia, criando uma relação entre as duas partes. Os partidos devem, por isso, ter em conta características essenciais que sejam valorizadas pelos eleitores ao escolherem um candidato que os represente, visto que uma má escolha afeta a motivação dos votantes. O desajustamento entre a oferta político-partidária e a procura, que representa as atitudes e expectativas do eleitor, constitui como outra explicação para a abstenção juvenil. Alguns cidadãos também apontam a desconfiança nas instituições e o desinteresse pela política como razões para se absterem. Espelha um declínio de identificação com as forças políticas. Os partidos podem cultivar o respeito pelas instituições democráticas, salientando a sua importância na construção do mundo em que vivemos hoje e como o voto é parte essencial da manutenção de paz, à qual os jovens estão habituados.
5. Alguns jovens demonstrarão um comportamento alienado face à política atual. Os eleitores inseridos em organizações políticas (militância partidária) não têm tanta tendência a abster-se; As pessoas com maior consciência cívica (que participam em manifestações ou em outras atividades do mesmo teor) não se abstêm tão significativamente.
6. A maioria dos jovens que se abstém, não tem uma opinião formada relativamente à sua ideologia política;
7. Os jovens com posições políticas mais extremistas demonstrar-se-ão mais ativos no ato eleitoral;
8. Uma das razões que os jovens vão apontar enquanto intensificadora do processo de abstenção é a de uma posição política contra o sistema democrático representativo em vigor;
Vivemos num período de crise ideológica e fraca mobilização política dos partidos, como tal os eleitores sentem-se perdidos face aos princípios de cada partido e à ideologia com que vão corroborar ao exercer o direito de voto. Consequentemente optam por não votar ou por votar de forma inconsciente. Os partidos necessitam de delimitar, de forma clara, a sua orientação ideológica e explicitar de que forma está de acordo com as suas propostas, assegurando-se de que a população compreende, a aplicação na ideologia na prática.
9. As pessoas de um meio rural ou de pequenas cidades têm mais tendência a votar, visto que há uma maior proximidade entre candidatos e eleitores;
10. Os eleitores com mais habilitações académicas têm menos tendência a abster-se dos atos eleitorais;
11. A posição política dos jovens eleitores é muito definida pelo núcleo familiar em que estão inseridos;
A passagem de hábitos socioculturais relativamente à política tem sido marcada por uma “herança de cultura política” abstencionista e descredibilizadora do sistema político eleitoral, reduzindo o voto da sua condição de dever para irrelevante. Uma estratégia que pode permitir o crescimento da participação eleitoral dos jovens é a implementação do exercício da cidadania ativa nas escolas. O sistema formativo educativo desempenha um papel fundamental na formação de consciências e de consolidação de valores, bem como de processos que estimulem nas crianças, futuros jovens e adultos, uma consciência clara dos seus deveres enquanto cidadãos. Também o restringir da participação dos jovens ao ato eleitoral desmotiva-os. A criação de formas de integração política, poderá permitir que o jovem se sinta socialmente integrado e parte fundamental na manutenção da democracia. A pluralidade de formas de participação política (como em Juventudes Partidárias ou Manifestações) que vão envolvendo mais o jovem, podem resultar em valores mais favoráveis na participação eleitoral.
12. Os jovens vão apontar como a entidade mais responsável pela sua socialização política, os novos meios de comunicação social.
13. A fonte de informação mais utilizada pela faixa etária em análise (os jovens) estrutura-se através dos novos media. As campanhas políticas, ao não se adaptarem tão significativamente a este formato, acabam por não ter grande alcance entre os jovens. Então, os novos media estão mais associados à abstenção, apesar de terem grande potencialidade para a diminuir.
14. As pessoas que se abstêm não têm consciência relativamente às consequências que este ato tem para com o estado atual da democracia portuguesa
Os jovens sentem-se deslocados do campo da política, a linguagem utilizada não é do seu domínio nem de fácil compreensão para este público. Num estudo feito, cerca de 173 dos inquiridos acompanhavam debates televisivos, no entanto cerca de 47% não muda de opinião, isto é, tem uma atitude acrítica face às discussões políticas, pois a linguagem formal apresentada nesses debates é completamente distante à sua. Deste modo, existe uma necessidade de as mensagens serem veiculadas de forma mais apelativas, com linguagens mais leves e informais, que os incentivem de forma a que se sintam integrados a participar no ato eleitoral, mas também noutras formas de manifestações políticas. Sendo as redes sociais partes integrantes do quotidiano dos jovens, representam uma boa oportunidade para os sensibilizar- como um meio apetecível aos olhos da juventude, o alertar para a importância da cidadania ativa poderia ter mais impacto sendo feito de um modo mais informal e apelativo.
É acima de tudo essencial que os jovens criem um sistema de consciencialização e responsabilização. É necessário que se envolvam e se informem sobre politica e que desenvolvam uma atitude critica e construtiva.
As eleições presidenciais de 2021 prometem números de abstenção nunca antes vistos. Primeiramente, a abstenção cresce em média 15% em anos nos quais o atual presidente se recandidata. Depois existe a problemática de se realizarem em plena pandemia, o que tenderá a afastar sobretudo o eleitorado mais velho, que é tradicionalmente o mais participativo (“entre 45 e os 64 anos e a partir dos 65, são claramente os mais participativos”). É impossível saber ao certo quantas pessoas estarão impedidas de votar. Para além de muitos emigrantes portugueses continuarem a ser privados do voto, com a obrigatoriedade de ser presencial em consulados que podem ficar a mais de 5 horas de suas casas ou em contexto pandémico onde os confinamentos de determinados países podem constituir barreiras para o eleitor chegar às urnas, um novo problema que se põe passa pelos eleitores infetados ou em isolamento profilático. Apesar de ter sido dada a possibilidade de se inscreverem para o voto antecipado até ao dia 17 de Janeiro, onde as Câmaras municipais vão constituir equipas para a entrega e recolha dos boletins de voto em casa, a verdade é que depois dessa data, qualquer pessoa que teste positivo para a COVID-19 ou que entre em contacto com alguém infetado e assim o reporte ao SNS, fica impedido de votar. Se a média diária de 10 mil novos casos se mantiver, então cerca de 100 mil portugueses ficarão impossibilitados de votar, fora os que se encontrem em isolamento profilático. E ainda contabilizaremos a abstenção enquanto ato de protesto. Muitos comerciantes, fruto da sua revolta para com as medidas tomadas pelo governo que puseram em causa os seus negócios, podem abster-se.
Segundo Carlos Jalali, professor de Ciência Política da Universidade de Aveiro, a abstenção poderia chegar aos 75% mesmo antes da pandemia, “por via do recenseamento automático dos residentes no estrangeiro, que somou 1,1 milhões de pessoas aos cadernos eleitorais”. Por sua vez, a pandemia veio agravar ainda mais a situação. Para uma democracia mais forte, é imprescindível que exerçamos o nosso direito de voto.
Maria Almeida
Bibliografia
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Os jovens, a abstenção e a Europa, in Público (17/05/2019) de Luís Alves, consultado no dia 10/10/2019
“Abstenção: e quem decidiu e não decidir?”, in Público (8/10/2019) de Catarina Santos Botelho, consultado no dia 20/10/2019
“Abstenção atinge recorde nas legislativas “, in Público (7/10/2019) de Rúben Martins, consultado no dia 27/10/2019
“ Abstenção: um problema com solução”, in público (29/09/2019) de Henrique Pita Barros, consultado no dia 30/10/2019
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