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Crítica: A Cabana do Pai Tomás de Harriet Beecher Stowe, 1852

  • Foto do escritor: Hora Incerta
    Hora Incerta
  • 12 de ago. de 2020
  • 3 min de leitura

Atualizado: 26 de ago. de 2020


Após tomar conhecimento que a obra A Cabana do Pai Tomás tinha sido um elemento histórico importantíssimo para fazer disparar o gatilho dos vários anos de opressão esclavagista em direção à Guerra Civil Americana, fiquei intrigada em saber no que consistia esta narrativa e, por isso, aventurei-me na sua leitura.

Este livro, que guardava no fundo de uma gaveta empoeirada, pelo qual passava os olhos com uma postura indiferente, e aqui peço que desculpem a minha ignorância por não fazer a mínima ideia de que consistia num clássico tão importante, revelou-se-me uma autêntica surpresa e despertou-me um misto de emoções contraditórias. O livro começa por acompanhar os percursos de Tomás e Harry, dois escravos de Arthur Shelby, depois da triste venda dos seus corpos e almas a um cruel comerciante de escravos, com o intuito de saldar uma dívida antiga da família Shelby. Enquanto Harry, uma criança talentosa, consegue escapar ao colo da sua mãe com muito esforço e sacrifício, Tomás, como a íntegra e cristã personagem que é, decide entregar-se sem qualquer resistência ao comerciante, deixando o seu destino nas mãos do seu novo Senhor. Assim, Tomás é colocado num barco em direção a Mississippi, ao longo desta grande jornada, a fé de Tomás vai ser colocada à prova pelas enormes atrocidades a que é sujeito. O leitor observa esta luta para no final ver Tomás tornar-se o herói da estória.


Confesso, desde já, que não foi uma leitura fácil, não por possuir um vocabulário complexo ou descrições muito longas, na verdade, a linguagem utilizada é até bastante acessível, mas por ser um livro altamente religioso com várias referencias bíblicas às quais o meu interesse se desligou e as quais o meu conhecimento não conseguiu abranger. No entanto, ao mesmo tempo que critico o seu caráter cristão, também o elogio, como disse, a opinião que possuo sobre a obra é extremamente contraditória. Reconhecemos que as nossas formas de religiosidade sofrem mutações e a forma como as encaramos depende do momento histórico em que nos encontramos. Por isso, se em tempos o cristianismo permitiu legitimar a escravatura, a autora utiliza-o neste livro para a deslegitimar. Estratégia que, pessoalmente, considero muito inteligente e que talvez explique o impacto que o livro teve na mudança da mentalidade pro-escravatura numa população maioritariamente cristã. Expondo os princípios de igualdade e irmandade propagados pela Bíblia, a obra aproxima o escravo da sua condição humana e afasta-o da condição de produto, ao revelar o seu sofrimento e a sua luta pela liberdade, tanto como a vontade de procurar uma purificação da alma a partir do cristianismo, altera a ideia mal concebida de que os descendentes africanos possuíam menos sensibilidade e entendimento dos princípios morais que os caucasianos, logo, poderiam ser mercantilizados. Foi por se servir de algo tão próximo da comunidade americana que o livro teve o alcance que teve.


Com isto, não pretendo, obviamente, fazer qualquer juízo de valor às escolhas da autora para a sua obra, nem quanto às opções religiosas de cada um, apenas pretendo chamar a atenção de um possível leitor para que adote uma perspetiva crítica e contextualizada, como deve fazer com qualquer leitura, pois existem vários aspetos neste clássico que, sobre um olhar atual, são muito contestáveis e polêmicos. E isto também diz respeito a outros aspetos para além do religioso, mesmo olhando para a forma como a escravatura é por vezes descrita, nota-se uma certa frequência num retrato paternalista, em que o “senhor” protege e trata de forma digna o escravo, coisa que sabemos fugir à regra da altura. No entanto, o livro também acaba por questionar este retrato que muitas vezes servia de argumento para os defensores do negócio, na medida em que faz perceber que mesmo tendo um “senhor” relativamente humano, o escravo continua sem controlo do seu destino e é privado da sua liberdade.


Sendo assim, porque propomos aqui a leitura deste livro? Bem, o Hora Incerta tenciona incentivar o debate mais informado sobre o tema do racismo inerente à escravatura. Por sua vez, ler livros que nos ajudem a entender o percurso histórico da escravatura, ajuda-nos a perceber as fundações sobre as quais as nossas sociedades estão edificadas e que conduzem a comportamentos racistas. Este livro é uma peça para entender a abolição da escravatura nos EUA.



- por Salomé Rita - Agosto 2020 em Críticas

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