Crítica: Por Favor Não Matem a Cotovia, de Harper Lee, 1960
- Hora Incerta
- 28 de ago. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: 29 de ago. de 2020

Enquanto lia a célebre obra Por Favor Não Matem A Cotovia, de Harper Lee, tentei compreender o que fazia daquele livro algo tão emocional e diferente. O pequeno pormenor capaz de deixar nos meus olhos subtis indícios de lágrimas.
Não foi preciso muito para compreender, posteriormente, que o que esta obra traz de diferente é o modo como é contada sob a perspetiva de uma criança.
Desse modo, ao acompanharmos a trajetória de Scout Finch, uma órfã de mãe que vive com o pai e o irmão numa cidade designada de Maycomb e localizada no Estado do Alabama, somos confrontados com uma inocência e pureza que nos remete para a infância e que contrasta com a precariedade e com o preconceito de uma sociedade decadente, fruto da depressão dos anos 30.
A narrativa está dividida em duas partes: a primeira centra-se nas brincadeiras levadas a cabo por Scout, pelo seu irmão, Jem, e pelo vizinho do lado, Dill, que nor
malmente envolviam a misteriosa história de um vizinho bizarro que nunca saía de casa, Boo Riley; e a segunda parte, na trama dramática que é a tentativa de Atticus Finch, pai de Scout, de provar a inocência de um homem negro, Tom Robinson, acusado de violar e agredir uma rapariga caucasiana de classe baixa.
Portanto, enquanto por um lado, somos confrontados com a pacificidade e beleza da infância de uma rapariga incomum, que apesar de se envolver muitas vezes em problemas, exibe uma leveza extrema; por outro, acompanhamos o modo como essa mesma inocência e delicadeza se mistura com a negritude da violência de uma sociedade opressora.
Em qualquer casa, há algo que Harper Lee, faz muito bem: é clarificar, ao longo da
narrativa, que esta é mais do que a simples história de um condenado que sofre da injustiça dos preconceitos de uma sociedade conservadora; e sim no modo como isso afeta as crianças que, apesar de puras, são suscetíveis a deixar-se corroer pelo ódio se esta for a circunstância do seu crescimento. E esta máxima é comprovada pela epígrafe presente nas primeiras páginas do livro:
“Suponho que os advogados já foram, um dia, crianças.”
A par deste primeiro indício, que destaca a verdadeira intenção da autora ao escrever esta obra, somos confrontados com uma dualidade muito acentuada na segunda parte: a diferença entre um pai indiferente e violento característico da personagem de Bob Ewell e um pai cauteloso e preocupado presente na figura de Atticus Finch, cujos filhos se tornarão produto de cada um dos seus comportamentos.
Enquanto Mayella Ewell acusa injustamente Tom Robinson, um homem negro inocente, induzida pelo pai ao descobrir a sua paixão por ele; Scout, apesar da sua personalidade traquina e irrequieta, sensibiliza um grupo a pôr fim à sua crueldade.
Esta ideia de Scout enquanto elemento pacificador de uma cidade marcada pela pesada tensão racial atinge o seu expoente máximo num episódio particularmente conturbado no qual Scout, Jem e Dill seguem Atticus por mera curiosidade e descobrem que ele
passa as noites à porta da prisão para garantir a segurança de Tom. É só quando uma multidão ameaçadora aparece com o intuito de magoar o acusado, que Scout revela a sua presença e aborda casualmente Mr. Cunningham, o único rosto entre aquele grupo de pessoas:
“ - Olá, Mr. Cunningham.
Parecia que o homem não me tinha ouvido.
(…)
- Não se lembra de mim, Mr. Cunningham? Sou a Jean Louise Finch. Uma vez até nos trouxe nozes, lembra-se?
Comecei a sentir a futilidade de falar para uma pessoa que não se lembra de nós.
- Ando na escola com o Walter - comecei novamente. - É seu filho, não é? É, não é, s’nhor?
Mr. Cunningham assentiu levemente. Afinal ele conhecia-me.
- Ele está na minha turma - retomei - e está a ir muito bem. É um bom rapaz - acrescentei - mesmo bom rapaz. Uma vez levámo-lo a almoçar lá a casa. Diga-lhe olá por mim, está bem?”
(Lee, Harper, 1997 p. 169)
O impacto deste momento é marcado pela acentuação da individualidade. Af
inal, a coragem do ser humano é enfatizada ao máximo pelo anonimato de pertencer a um grande ajuntamento. Nesse momento, o Homem deixa ser o Homem, põe a sua sensibilidade de lado e assume-me como mais um membro cruel e impessoal no meio de tantos outros. Scout fala-lhe de algo que o define enquanto pessoa, de algo que é produto da sua genética e, apesar de parecer um pouco duvidoso, do seu amor. O impacto destas palavras em simultâneo com o facto da protagonista estar alheia ao abalo que estas provocaram, confere à cena uma beleza simplista que comove o grupo violento, o que resulta no final inesperado do episódio:
“Atticus não disse nada. Olhei em volta até encarar Mr. Cunningham, cujo rosto estava igualmente impassível. Foi então que ele fez uma coisa muito estranha. Baixou-se e pôs-me as mãos nos ombros.
- Eu digo-lhe que disse olá, menina - sossegou-me. Depois levantou-se e acenou com a sua mão descomunal.
- Vamos embora - ordenou. - Vamos embora, rapazes.”
(Lee, Harper, 1997, p. 170)
Começa a tornar-se óbvio que o ódio constitui a verdadeira motivação por detrás de tanto racismo e preconceito na cidade de Maycomb. Um sentimento que passa de pais para filhos, de homens para mulheres, de classes altas para classes baixas, de brancos para negros. É Jem, o irmão mais velho da protagonista que dá voz a esta ideia tão marcadamente acentuada ao longo das páginas deste livro:
“ - Sabes que mais, Scout? Eu agora percebi tudo. Tenho pensado muito nisso e já percebi tudo. No mundo há quatro tipos de pessoas. Há o tipo de pessoas normais como
nós e os nossos vizinhos, o tipo de pessoas dos bosques, como os Cunninghams, o tipo de pessoas que vivem em lixeiras, como os Ewells e há os negros. […] O que acontece é que as pessoas como nós não gostam dos Cunninghams, os Cunninghams não gostam dos Ewells e os Ewells odeiam e desprezam as pessoas de cor.”
(Lee, Harper, 1997, p. 249-250)
Jem tem razão. Fica comprovado que, apesar dos seus doze anos, consegue perspicazmente detetar o tipo de mentalidade que é perpetuada na pequena cidade onde habita. Já Scout deixa clara a sua reticência relativamente à tese do irmão mais velho. Para ela é inconcebível que seja uma noção tão vaga e ridícula como de classe a definidora de tanto ódio. Essa ideia é deixada clara quando simplesmente afirma que:
“Na, Jem. Acho que só há um tipo de pessoas. Pessoas.”
(Lee, Harper. 1997. pág. 250)
Para Scout não há nada que a possa demover deste facto, porque cresceu com as sábias palavras de Atticus. O seu pai, no meio de tanta negritude e tensão, no meio de tanta violência e agressividade, mantém-se impávido, revelando-se superior a toda a população de Maycomb, movida pela ignorância e preconceito. Uma das inúmeras lições de vida que Scout aprendeu foi a de que matar uma cotovia constituí pecado:
“As cotovias não fazem nada a não ser cantar belas melodias para nós. Não estragam os jardins das pessoas, não fazem ninhos nos espigueiros, só sabem cantar com todo o sentimento para nós. É por isso que é pecado matar uma cotovia.”
(Lee, Harper, 1997, p. 99-100)
Esta referência, apesar de parecer insignificante para o desenrolar da história, revela-se de grande importância para Scout e para tudo o que aprendeu naquela jornada conturbada que marcou a sua infância. Para ela, só pela própria existência, pelo modo como levam a cabo as suas vidas influenciadas pelas suas escolhas, muitas pessoas são cotovias. Boo Riley é uma cotovia. Tom Robinson é uma cotovia.
E é por isso fundamental também hoje não esquece os seus nomes. Trayvon Martin. Kandrec McDade. Kimani Gray. Eric Garner. Michael Brown. Natasha McKenna. Walter Scott. Freddie Gray. Christian Taylor. Samuel DuBose. Philando Castile. Jordan Edwards. Breonna Taylor. Bruno Candé Marques. George Floyd. Todos eles “cantavam” para nós belas “melodias” plenas de sentimento. Todos eles eram inocentes. Todos eles eram cotovias. Quantas mais vamos deixar morrer?
- por Eva Costa- 28 Agosto 2020 em Críticas
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