Crónica: O olhar anti-racista de quem viveu num tempo de injustiça
- Hora Incerta
- 26 de ago. de 2020
- 5 min de leitura

A morte do ator Bruno Candé Marques trouxe novas luzes sobre o racismo em Portugal. O ator de 39 anos foi baleado quatro vezes por um indivíduo de 76 anos que, segundo a família da vítima, já tinha sido o autor de várias ameaças e comentários racistas- “volta para a tua terra”, “fui à tua mãe e aquelas pretas todas de m**** ”, “vou violar a tua mãe” e etc. Escusado será relatar mais detalhes deste terrível acontecimento, ou citar as mais bárbaras frases do homicida, até porque para o propósito deste artigo estes servem.
Inevitavelmente, em grande parte devido à crescente mobilização do movimento Black Lives Matter, as redes sociais começaram a transbordar comentários e opiniões sobre este incidente. Chamou-me à atenção o número de pessoas que tentaram desculpar o homicida de Bruno Candé pelo simples facto de ser um idoso de 76 anos: comentários do género “temos de compreender que alguém com 76 anos cresceu numa época muito diferente da nossa”, “se tivessem ido à guerra se calhar tinham uma perspetiva diferente”, “foi um ajuste de contas para um senhor velhote”, “foi educado de uma maneira que não lhe permite ver as coisas de maneira diferente” entre outros. Vou partilhar algumas histórias que espero que possam constituir um momento reflexivo para aqueles que partilham da linha de pensamento destes comentários.
O meu avô tem 76 anos, a minha avó 74 e viveram em Moçambique entre 1966 e 1973. A minha avó chegou a África grávida da minha mãe e foi lá que a teve. O meu avô ficava algumas noites a trabalhar até quase de madrugada e, numa dessas noites, a minha avó ficou preocupada por não ter tido notícias dele. Então, por volta das 4h da manhã, foi utilizar um telefone que ficava praticamente à porta do prédio onde viviam; quando voltou, uma das vizinhas alertou-a para o perigo em que ela se havia tido colocado (bem como à bebé) por ter saído de casa aquelas horas, pois aquela hora existia “uma imensa quantidade de pretos na rua que lhe podiam fazer mal”. Numa outra vez, enquanto em plena luz do dia a minha avó passeava na rua (ainda grávida) foi apalpada por um homem que fugiu logo de seguida.
Ironicamente, se eu hoje em dia sair de casa as 4h da manhã não me sinto segura na mesma e também eu já fui assediada por indivíduos que a seguir fugiram, não tendo absolutamente nada a ver com etnia ou a cor de pele de quem possa passar ou ser o protagonista do assédio.
Aquando o nascimento da minha mãe, os meus avós contrataram alguns jovens para ajudarem na limpeza da casa e para tomarem conta dela- nenhum deles comeu da comida deles, nunca. Um dos rapazes que lá ajudavam adoeceu e despediu-se por ter tanto medo do que lhe poderia acontecer se contagiasse um “branco”. Praticamente todos os dias a minha avó acordava às 5h da manhã para ir ao talho, onde se encontrava uma fila já muito composta, mas não tanto como a fila do talho dos “pretos”, que não tinham nem direito ao mesmo tipo de carne; a injustiça era de tal ordem que metade das pessoas que se encontravam na mesma às 5h da manhã já não conseguiam arranjar comida. Havia um cinema para “brancos” e um para “pretos”, mas, caso chovesse, era dever dos “pretos” carregarem os brancos de um lado ao outro da estrada para que não molhassem os pés.
Mas sabem uma coisa? Na casa dos meus avós fora sempre a todos oferecido um lugar à mesa, insistindo que se juntassem a eles durante a refeição. Eles asseguraram ao jovem que adoeceu que ainda teria o seu emprego, caso o quisesse, quando estivesse curado. A minha avó não podia pôr-se na fila “dos pretos” porque não lhe vendiam carne nessa fila. Os meus avós insistiam em passar a estrada molhada sozinhos, mas chegavam a ser literalmente carregados à força para não molharem os pés. Todas estas vivências quotidianas dos meus avós revelam um país profundamente desigual, como já seria de esperar.
Quando os questionei acerca do porquê de recusarem sempre comer da comida deles, os meus avós responderam que não sabiam bem, mas que pensam que seja por não estarem habituados ao tipo de comida que eles cozinhavam, por preferirem os seus comeres. Inclusive faziam cara feia, muitas vezes, aos pratos cozinhados pelos meus avós. A desigualdade estava tão profundamente enraizada que até os paladares dos negros eram considerados inferiores.
Graças a um regime opressor, há 50 anos, toda a gente compactuava com o racismo; uns mais outros menos, uns inocentemente e outros conscientemente. Mas penso que já chegue de desculpas para o imperdoável. Eventualmente toda a gente, eles inclusive, acabaram por se conformar com essa desigualdade. Não se consideravam superiores pela sua cor de pele em 1970 nem se consideram hoje. Trataram com respeito todas as pessoas que passaram pela sua vida, independentemente da sua etnia e cor da pele e procuraram, com pequenos gestos, mostrar que aos seus olhos não existia discriminação.
Engraçado como alguém da mesma idade do assassino de Bruno Candé pode ter uma perspetiva tão diferente do mundo, apesar de terem crescido na mesma época e terem presenciado a guerra… Durante tantos anos cometemos as maiores atrocidades por territórios, por dinheiro, por poder e por tantos outros pretextos que nada justificavam os meios. Hoje olhamos para trás admitindo os erros que cometemos e desresponsabilizamos-mos dos mesmos, dizendo que está tudo no passado, que não existe racismo em Portugal e que evoluímos. Então e em relação ao presente? Se assim o é porque é que em 2016 vinte e duas organizações de afro-descentes fizeram queixa de Portugal à ONU? Porque é que um partido liderado por alguém que é propagador de discursos de ódio contra minorias está a ganhar cada vez mais influência? Porque é que Bruno Candé foi assassinado?
Com todo o respeito por todas as experiências, traumas e histórias pessoais de cada um, não podemos aceitar que sejam legitimados atos de discriminação, de preconceito, de violência. Se o fizermos, o ciclo da desigualdade, da guerra e da violência não terá fim. Portugal não é racista. Mas existe racismo em Portugal. Temos de parar de culpar o passado e desculpabilizar o presente. Ter 76 anos não é desculpa para ser racista. Ter presenciado uma guerra não é desculpa para ser racista- especialmente não numa guerra cujos oprimidos apenas lutavam pela liberdade e igualdade, valores que considerávamos como essenciais, básicos e garantidos, mas que não tivemos problemas em pôr em causa.
Cabe-nos a todos nós olhar criticamente para a história, abrir os olhos face ao mundo que nos rodeia e focarmo-nos em parar de dar desculpas. Começar a ver corações e não cores de pele.
- por Maria Almeida - 26 Agosto 2020 em Críticas
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