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O Sistema Educativo: a memorização já não nos serve!

  • Foto do escritor: Hora Incerta
    Hora Incerta
  • 27 de fev. de 2021
  • 7 min de leitura

Eu sou um número. Todos nós o somos, desde o número de civil até ao número de aluno da escola. Assim, durante o percurso das nossas vidas, convivemos com a ideia de que, para estratificar e organizar a nossa sociedade, é necessário estarmos associados a um número. Contudo, há momentos em que nos deixamos definir por esses mesmos números, quase como se significassem bem mais do que um simples conjunto de algoritmos que, no fim de contas, não dizem nada sobre nós. O maior exemplo disto é a cotação média com que nos candidatamos à universidade. E é esta mesma cotação que define o futuro de milhares de estudantes de Portugal todos os anos e que considera se estamos ou não aptos para seguir as aspirações que ambicionamos para o nosso futuro.

Como referiu Richard Williams (mais conhecido pelo seu nome artístico, Prince EA), no seu mais famoso vídeo: “I Sued The School System” ou “Processei o Sistema de Educação”, a escola permanece intacta. O sistema mal mudou no decorrer do último século. Nos Estados Unidos, há exatamente cinquenta anos atrás, a minha avó sentava-se na carteira que lhes correspondia e, por seis horas, ouvia um professor falar sobre os mais diversos assuntos que eram fundamentais para decorar, mas cuja utilidade podia ser considerada questionável. Depois disso viu-se forçada a trabalhar sem nunca, contudo, aplicar os conhecimentos que aprendia na escola na sua vida profissional. Há trinta anos atrás, mas já em Portugal, os meus pais passaram pelo mesmo, forçados a responder a testes extremamente padronizados quando desejavam apenas aprender a desenhar de um modo mais rigoroso. Agora, são os seus netos e filhos que passam por isto e ponderam por quantas mais gerações se perpetuará este ensino anacrónico e difícil de alterar.

Enquanto Williams afirma, ainda no decorrer do seu vídeo, que é inacreditável que ao longo dos séculos se tenham conquistado feitos revolucionários para a sociedade através da invenção Ipods’ ou até mesmo descoberta da teoria da relatividade, e, mesmo assim, continuarmos a usar o mesmo método de ensino; Eu aproveito para consolida que os génios que estiveram por detrás dessas mesmas invenções e descobertas nunca se adaptaram verdadeiramente ao sistema escolar. Tanto Steve Jobs como Albert Einstein viram-se forçados a desistir dos estudos, tal era a forma como estes condicionavam a sua forma de interiorizar e aplicar os conhecimentos apreendidos.

No vídeo apresentado por este artista são ainda enumerados os mais diversos sistemas escolares que, apesar de algumas falhas, se revelam muito mais justos e equitativos que o sistema que temos em prática:

-Primeiramente é nos apresentada a escola da Finlândia cuja instituição apresenta características muito distintas da nossa, e que assenta em sete etapas: Igual, Gratuita, Autónoma, Prática, de Confiança, Voluntária e Independente. Assim, o foco cinge-se no aumento da participação dos alunos com o intuito de incentivar a que todos se sintam bem-sucedidos com a sua aprendizagem acadêmica e emocional. O ensino foca-se na capacidade dos alunos em estabelecer metas, resolver problemas quotidianos e avaliar o que aprendem de um modo autónomo. Talvez seja por isso que não haja necessidade de se fazer mais do que um teste anual, cuja cotação é apenas simbólica.

-Em seguida é referido o movimento das escolas modernas que acaba por utilizar um sistema não tão diferente do que é praticado em Portugal, mas que tem, essencialmente, como base a comunicação. Uma vez que os professores passam grande parte da aula a dar matéria do modo que nos é dada em Portugal, mas dedicam os últimos momentos da aula a questionar sobre aquilo que aprenderam na aula, utilizando este momento como modo de avaliação. Deste modo, os alunos são incentivados a estudar autonomamente a matéria da aula em casa para poder responder corretamente às perguntas feitas pelo professor.

-Finalmente, somos confrontados com a escola montessoriana, assente na doutrina da psiquiatra e educadora italiana Maria Montessori. Este sistema educacional assente na total autonomia dos alunos (é normalmente aplicada no ensino mais primordial, portanto, primário) que andam pela sala livremente e escolhem o que desejam aprender. Enquanto isso, o professor não se limita a dar a matéria, mas sim guia e observa atentamente os seus alunos. Neste processo, a criança adota um papel de protagonista da sua aprendizagem em vez de espectador.

Embora todas estas instituições apresentem características distintas, todas elas possibilitam uma preparação para a vida em tudo diferente da que a que estamos habituados nos sistemas educativos comuns espalhados pelo país. Através da ausência de testes padronizados e professores obrigados a ensinar uma matéria densa e proposta por pessoas que nunca trabalharam diretamente com a educação, surge um incentivo à cooperação entre alunos em vez de uma competição pouco saudável pela melhor nota. Nestes sistemas educativos são as diferenças entre os alunos que os tornam mais fortes e possibilitam a evolução da disciplina que ambicionam exercer no futuro, independentemente de ser matemática ou música.

Enquanto isso, na curta metragem “Alike” ou “Semelhantes”/“Iguais”, é denunciado não apenas um sistema educativo padronizado, e sim uma sociedade igualmente estandardizada que surge enquanto produto e reflexo dessa mesma educação. Notei, neste mini-filme, um oportuno destaque para a importância das artes e da criatividade na vida não só das crianças como dos adultos, para além de expor o quanto estas são desvalorizadas na atualidade.

Os gregos tinham um provérbio que permanece muito conhecido até aos dias de hoje: “Mente sã, corpo são”, e esta importância atribuída à mente sã não está nem perto do que aprendemos hoje no nosso sistema educativo. Como é de conhecimento geral, os gregos foram os responsáveis por feitos inacreditáveis no domínio da cultura como a democratização da sociedade (com principal foco em Atenas), estas e muito outras conquistas ficaram a dever-se a uma educação que articulava não apenas o grego e a matemática, como o desporto e até mesmo o teatro.

Para além de exemplos históricos como este, surgem teorias por parte de profissionais na área da psicologia e da pedagogia (como James Catterall, professor universitário que coordenou um estudo sobre o efeito que as artes têm no processo académico) que afirmam que o exercício de qualquer atividade artística ajuda no desempenho cognitivo dos estudantes. Tenho para ilustrar este argumento o meu caso pessoal, pois enquanto antiga aluna de teatro amador, reconheço uma dada aquisição de competências como: articulação de discurso, capacidade de falar perante um grande público, uma maior capacidade crítica, uma maior facilidade em sentir empatia, uma mais significativa aptidão de expressão emocional, etc.; e tudo isto ser-me-á certamente mais útil no contexto do meu futuro desempenho profissional, do que saber calcular o teorema de Pitágoras.

Agora que já foram, por mim, denunciadas muitas das críticas do sistema educacional, é mais que justo que apresente possíveis soluções para os problemas apresentados. A primeira coisa que, na minha opinião, poderia ser alterada, está relacionada com a estruturação do sistema e todo o desequilíbrio que esta causa naqueles que estão diretamente envolvidos. Primeiramente, deveriam ser apresentadas melhores condições de trabalho para os docentes e funcionários da comunidade escolar, os professores deviam ver os seus salários serem aumentados, pois estes apresentam um papel fundamental para a sociedade pois asseguram o seu futuro, no vídeo de Williams, é igualmente evidenciado que os professores mereciam receber tanto como os médicos uma vez que as funções desempenhadas pelos dois empregos são das mais importantes para a população. Para além disso, as metas deveriam ser reduzidas, para assim existir uma maior profundidade nos temas estudados e não um saber superficial devido à ânsia de se ensinar muita coisa por cada disciplina.


Já no contexto de medidas que poderiam ajudar os alunos, surgem possibilidades como: uma opção mais diversificada das disciplinas possíveis tal como acontece no ensino superior, pois por vezes os alunos não se conseguem integrar em nenhuma área no nono ano e preferem opções mais abrangentes (por exemplo, na atualidade é impossível consolidar História A e Matemática) e completas para a candidatura para a Universidade; Deveria, igualmente, existir uma consolidação interdisciplinar entre a matéria estudada e outras áreas do saber como as artes, uma vez que muitos alunos não sabem que há possibilidade de seguir as artes performativas ou mesmo visuais porque nunca as experimentaram e não sabem que são boas o suficiente para fazer disso a sua vida profissional; Surgiu, ainda, a ideia de consolidar, no contexto da candidatura à Universidade, a médio global (avaliada objetivamente através de exames e testes) e a apresentação de um currículo que expunha as atividades em que o aluno tinha participado no seu percurso escolar (avaliada de um modo subjetivo), pois na atualidade procuram-se alunos empreendedores e disponíveis para se envolver em projetos que variam entre a política e a arte, por exemplo.

Está na altura de mudar. A sociedade está longe de ser aquilo que era há cinquenta, há trinta, há dez anos. Contudo, mantemo-nos condicionados por um sistema educacional que está, sem dúvida, preso a um passado em que a prioridade era acabar com o analfabetismo. Agora que o mundo evoluiu, é tempo da educação evoluir com ele e seguir os critérios que são procurados pelo mundo do trabalho: uma melhor capacidade de inovação e criatividade que desperte em nós empatia e valores éticos e morais. Está na altura de negar parte do que nos é incentivado pela escola: seguir as regras, interiorizar conhecimentos para depois aplicá-los mecanicamente. Agora, já não se procuram “robôs” que fazem repetitivamente a mesma tarefa numa fábrica, agora procura-se quem os invente.

Eu sou um número. Todos os estudantes portugueses o são. Nunca deixaremos de ser estes algoritmos no decorrer do nosso percurso académico, porque não houve ninguém que, antes da nossa geração, dissesse que bastava de padrões e estruturas nas quais temos obrigatoriamente de estar inseridos. Portanto, nada mais me resta do que admitir que fui um 17,5 candidato às seis opções de cursos universitários a que tinha direito. Poderia dizer que nada mais me resta do que ceder perante esta estrutura tão profundamente intrínseca na nossa sociedade, contudo há a necessidade de a contrariar e é para isso que faço este apelo. Não contestaremos por nós, pois já não vamos a tempo, mas contestaremos pelos que virão. Eu sou um número, mas os meus filhos e netos não o serão.


-por Eva Costa, 27 de fevereiro de 2021 em Sociedade

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