Rosita: O Rosto Do Passado Colonial Português
- Hora Incerta
- 10 de ago. de 2020
- 5 min de leitura

Num tempo em que a liberdade de expressão é tida como garantida, constituindo, assim, um direito a que todos temos acesso é importante saber diferenciar a opinião que cada um de nós pode nutrir por determinado assunto, dos factos inerentes ao mesmo. Atualmente vivemos na sombra de temas que surgem, permanentemente, como fraturantes numa sociedade que, embora preocupada com o futuro, ignora o confronto direto com questões extremamente decisivas no que toca à educação e respeito pelo outro, deixando-as na maioria das vezes para uma “outra altura”. O grande problema é que essa altura, esse tempo, essa época pode não chegar e, consequentemente, somos obrigados a olhar para trás e a assumir que errámos. Errámos ao ignorar que a tolerância é um valor chave para a mudança de mentalidades e que está, ainda, longe de ser garantido. Todos sabemos que a indiferença, a superioridade e a ambição desmedida colocam em risco a Humanidade, não somente num, mas em todos os seus sentidos. Não há muito tempo, embora nos dê a sensação que sim (já lá vão mais de 40 anos), Portugal assumia esse mesmo papel no Mundo, mais precisamente nas colónias ultramarinas.
O Império Colonial Português é visto como um tempo de conquista, deixando a impressão de que se trata de uma espécie de continuidade do célebre período dos Descobrimentos. Por detrás desta grandiosidade histórica, foi-nos deixado um legado de preconceitos e estereótipos a que, inconscientemente, recorremos no nosso quotidiano. Um dos episódios mais marcantes desta época remonta-nos ao ano de 1934, onde foi exibida uma exposição colonial no Palácio de Cristal no Porto, uma prática comum nos países da Europa, apelidada de Zoo Humano. No fundo, este tipo de evento consistia numa estratégia sociopolítica delineada pelo Estado Novo, onde eram escolhidos e exibidos nativos de diferentes colónias portuguesas. De tamanho sucesso, como ainda hoje é recordada, esta exposição continha ingredientes altamente atrativos, desde a cor da pele – o negro- nunca antes visto por muitos europeus, até à nudez da mulher negra, algo impensável na sociedade portuguesa da época, regida por valores conservadores e extremamente opressores no que toca à sexualidade feminina. Uma das figuras mais “populares” desta exposição, Rosita ou Rosinha, tal como ficou conhecida representava a dimensão sexual e exótica do Império Colonial Português. Era, assim, o exemplo perfeito de que nas colónias ultramarinas o corpo da Mulher Negra estaria inteiramente ao dispor do Homem Branco. Este novo colonialismo – “o colonialismo moderno” - adotado por Salazar, durante o Estado Novo, baseava-se em ideias capitalistas que promoviam a expansão do império português, através da exploração de produtos provenientes de África, tal como da mão-de-obra necessária no processo de industrialização pelo qual Portugal estava a atravessar. Embora a abolição da escravatura tivesse sido implementada em Portugal em 1761, ao que parece, os colonizadores portugueses tinham uma nova forma de impor as suas regras ao povo africano, sendo exemplo disso a imposição de trabalho forçado, caso contrário, estes seriam punidos. O domínio da metrópole sobre as províncias ultramarinas incluía também a ocupação de terras por parte dos colonizadores, que impunham uma vez mais através da violência física o seu poder. De acordo com as palavras proferidas por Salazar, África era a continuidade de Portugal e nesse sentido, era necessário tornar os africanos semelhantes à imagem atribuída ao povo português.
É importante referir que, embora as colónias africanas pertencessem a Portugal, isso não implicava que os africanos fossem considerados cidadãos portugueses. Muito pelo contrário, daí ter-lhes sido atribuído o estatuto de indígenas. Tal como todos os estatutos sociais, o estatuto de indígena implicava um conjunto de deveres e obrigações que deveriam ser cumpridos por parte dos mesmos. De acordo com as regras definidas pelos ocidentais, os indígenas poderiam ascender ao estatuto de assimilados, ou seja, era-lhes dada permissão para que pudessem adquirir propriedades, tal como a oportunidade de rejeitarem o trabalho forçado que lhes era imposto. Assim, para as gentes de África a discriminação acentuava-se cada vez mais, apenas e só pela questão racial que envolvia até, então, uma forma de viver culturalmente distinta daquela a que o Homem Branco considerava ser civilizada e digna. O “Bom Africano”, como foi catalogado por parte dos ocidentais, seria um africano obediente, civilizado, trabalhador, o que uma vez mais evidencia o caráter de superioridade que os colonizadores tinham para com os nativos de África ao distinguirem o “bom” do “ mau” africano, consoante aquilo que lhes era conveniente.
O Colonialismo, sem muitos rodeios, é “o direito de um povo expor outro povo segundo a sua vontade” – frase esta, proferida pelo Historiador Fernando Rosas presente na série documental “ História e História de África” transmitida na RTP 2. O insano desejo que Salazar tinha pelo domínio das províncias ultramarinas portuguesas era evidente. Contudo, a vontade e o anseio pela independência por parte dos nativos africanos estava à espreita. Em 1961, inicia-se, assim, a guerra colonial que durou cerca de 13 anos, tendo o seu fim em 1974. Portugal, através das Forças Armadas (enviadas para a Guiné, Moçambique e Angola) tentava impedir que os movimentos de Libertação por parte das colónias ultramarinas avançassem e pudessem, assim, conduzir à descolonização. Os movimentos de Libertação foram ao todo cinco: M.P.L.A. -o Movimento Popular de Libertação de Angola, liderado por Agostinho Neto; U.P.A.- União dos Povos de Angola, liderado por Holden Robert; U.N.I.T.A- União Nacional para Independência Total de Angola, dirigida por Jonas Savimbi; P.A.I.G.C- Partido Africano para a Independência da Guiné de Cabo Verde, liderado por Amílcar Cabral; F.R.E.L.I.M- Frente de Libertação de Moçambique, liderado por Eduardo Mondlane. A guerra termina, então, com a libertação dos territórios ultramarinos, devolvendo a independência que lhe havia sido roubada e violentada. O mito do “bom colonizador” português é, ainda hoje, tido como uma verdade incontestável na nossa sociedade e na forma como somos educados. É urgente desmistificar esta crença. Não há nem bons, nem maus colonizadores, aliás o colonialismo assenta numa série de ideais que desrespeitam a identidade, a cultura e a vida dos colonizados. O colonialismo português não contribuiu, de modo algum, para a integração de outros povos, nem para a multiculturalidade e muito menos para a civilização dos mesmos.
Contudo, é importante esclarecer que a origem deste conflito foi puramente política, tendo sido uma estratégia criada por parte do Estado Novo para iludir o povo português, com o intuito de conquistar o coração do povo lusitano, ao fazê-lo acreditar que as colónias seriam uma mais-valia para a exaltação de Portugal como um país poderoso a nível internacional. Neste sentido, também o povo português foi vítima desta guerra, tal como todos os africanos, que foram usados como escudo numa batalha com interesses puramente económicos e políticos. Ao fim destes anos, que a História nos ensine que a ganância e o ódio conduzem à destruição e que nunca, em lugar ou tempo algum, alguém sairá beneficiado. Sejamos todos humanos ao ponto de compreender que a guerra não deixa margem para vencedores nem vencidos, apenas abre espaço para o vazio que fica para sempre na História da Humanidade.
- por Beatriz Pereira - 10 de Agosto 2020 em Sociedade
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